Excrementos Poéticos


16/10/2011


Preciso colocar essas idéias num girau.

Deixar a mente vazia e o peito aberto.


Angústias aumentam o vazio.

Ou diminuem?


Preciso colocar meu pensamento pra quarar.

(Ou, talvez, de uma boa trepada!)

Escrito por Filipe Dias às 12h28
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14/09/2010


Eu não tive tempo de te poetizar.

Talvez por essa linda verdade

se traduzir em corpos tão remotos.

Linda verdade separada.

 

Será a distância oportuna

a suprimir necessidades tão latentes?

 

Há tempo não fodo contigo.

Nem comigo.

 

Tenho medo de sentir teu corpo incipiente

na tanta ausência de beijos.

O apenas pensar em ti

não mais me tem feito gozar.

 

Meu corpo ferve.

Receio que o sentir dessa verdade

entre em ebulição.

Escrito por Filipe Dias às 08h58
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21/07/2010


Cara de Paisagem

Estava eu ontem no buzu com cara de paisagem como quem não queria nada, quando uma criatura se aproximou e murmurou algumas palavras como se balbuciasse um cumprimento qualquer. Em minha ausência de mim mesmo - e do mundo -, fiz um outro cumprimento como uma lagartixa: balancei a cabeça como quem concordava com algo que ainda não tinha sido pensado, em resposta àquele senhor.

Era um senhor aparentemente comum: estatura média, cabelo baixinho com as entradas do bico-de-viúva e o rosto levemente queimado do sol enfatizava algumas marcas da ação do tempo. Vestia uma camiseta laranja com detalhes azuis que em nada combinava com a calça social marrom claro um tanto quanto desgastada. Tinha um semblante tranqüilo e feliz. Ele não me era, de todo, estranho. Mas, logo de início, não o reconhecia de fato.

Ao perceber minha estranheza, ele se aproximou um pouco mais, alargou o sorriso inocente dizendo: “- não está lembrando de mim?” Meu olhar de curiosidade aliado a minha cara de paisagem facilmente responderiam que não. Mas, antes que ele tivesse tempo de emitir qualquer outro ruído, contrariei meu ar desentendido: “- acho que sim!”

Meu ar analítico de estranheza não me deixava mentir. Agora tinha assumido pra mim mesmo: não o conhecia, conclui de mim para comigo. Contudo, era certo, a monossilábica conversa não estancaria por ali, afinal, a esta altura, notava-se na postura dele a ansiedade por ser reconhecido. Sim, isso era importante para ele. Constatado isso, redobrei a minha atenção e tentei puxar indícios de reconhecimento daquela figura em minha memória. Banco, escola, mercadinho, padaria, barbearia, igreja, bar...?

Antes que eu pudesse findar a minha listagem de prováveis lugares onde eu poderia ter visto tal figura, meu rosto se contorceu na medida em que a postura do meu observado ia se modificando. Tudo se passava como se o mundo alheio tivesse parado e a ação girasse apenas em torno de nós dois: o “reconhecido” e o “ainda não reconhecido”. Eu já não ouvia mais as buzinas e o sol ardente que adentrava pelo vidro também já não me incomodava mais. Naquele momento, só uma coisa interessava: descobrir por onde eu andei para possivelmente ter feito algum tipo de contato com aquele alegre e empenhado senhor.

Lentamente – sim, porque tudo se passava em câmera lenta –, minha testa franziu-se. O alegre senhor curvou um pouco a coluna projetando o sexo para frente e, enquanto a mão esquerda subia em direção à testa, a mão direita, levemente ousada, pousou dois dedos abaixo do umbigo. Concluída a montagem dessa inusitada construção corporal, o sujeito – àquela hora mais estranho do que nunca – deu uma reboladinha e cantou: “relaxa a pririquita, relaxa a piriquita...”

Como seria mais do que previsível, eu dei uma gargalhada. Porém, foi uma gargalhada de cumplicidade. Perguntei como ele ia e o respondi que comigo estava tudo bem. Rimos juntos, e ele seguiu caminho para se sentar numa poltrona mais a frente. Eu retomei a minha cara de paisagem e mais uma vez pensei de mim para comigo: “como eu não o reconheci?”. Segui a viagem com um leve sorriso no rosto.

Escrito por Filipe Dias às 13h25
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19/05/2010


DIZENDO-A

É... de vez em quando eu sou invadido por essa maré de intempestividades sensoriais. Mas só de vez em quando, rs! Avassaldor, talvez, nem tanto. Mas a parte do perdido no horizonte... é, sim! Não necessariamente no horizonte horizonte, mas em horizontes outros, homônimos, anônimos e, muitas vezes, impassíveis e/ou empolgantes (se é que é possível essa heterogênea interatividade). Perigosos também. Mas sempre muito bons (ou não).

Escrito por Filipe Dias às 12h55
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18/03/2010


DE NÃO SER

 

Não sou freira, nem sou puta.

Também não me resta força.

Apenas uma vontade

(bruta)

de não mais derrapar

na ausência do seu corpo.

 

Entre freiras e putas,

mexo e remexo de me inquisitar.

São as forças lapidadas

que retalham o sussurro

de que já não lembro mais,

e que me fazem hesitar.

 

Enquanto um poeta me diz

que deixe a lua acesa na varanda,

deixando, espero as asas que,

ela disse que Deus dá

(minha cobra não aprendeu rastejar).

 

De fato, não rezo, mas ajoelho.

Não me vendo, espero.

Sou bem mais fácil de me dar.

Escrito por Filipe Dias às 09h55
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23/12/2009


A VERES

Não tem ninguém aqui.

No aqui de tanto lograr.

Há nãos recheados,

caminhos entrecortados,

lampejos e leicensos.

Uma tapagem que se transpõe

sem muitas composições.

 

Não tem ninguém aqui.

E também não há lugar.

Mas há nãos transfigurados.

Há caminhos desanimados

que talham o caminhar

entre tantas compilações.

 

Há, apenas.

Porque sempre há de haver.

Mas um haver descabido,

desentendido de existir.

Escrito por Filipe Dias às 18h06
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13/11/2009


Olhos nos olhos,

não acredito em nada do que você diz

nem do que diz pensar

nem no que pensa em falar

nada!

Só me creio em suas hesitações.

 

Olhos nos olhos,

rostos distantes.

Corpos que dialogam

e contradizem tantas elucubrações.

Estáticos.

 

Assim você se negou, meu bem.

E continua a se negar bem mais de porquês.

Carícias ficaram por fazer.

E eu, como deveria, respeitei.

 

Olhos nos olhos,

no meu pensamento vai ficar

a vaga lembrança de uma aventura

bem compartilhada

e intensamente mal relembrada.

 

Às vezes me pego cantando

músicas que esvaziei de você.

E até destroçando

tudo que possa, em mim, te lembrar.

 

Muitas águas rolaram

e não movem mais meu moinho.

Muitas mágoas.

Decidi me banhar em novos lençóis

Para ser feliz e passar muito bem,

obrigado.

Escrito por Filipe Dias às 12h06
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16/10/2009


Pouca coragem talvez me preencha

com faltas e excessos,

entre vindas e idas eternas,

fugas de outrem.  

 

O pouco talvez me ressoe

em detalhes imperceptíveis

em atos destangíveis

em faltas de que faço uso

afim de me preencher.

 

Já o talvez...

Talvez o saiba de temores.

De calores que me desabam

me desperpetuam de pesares

calares e aceitações,

penosas aceitações.

 

Muitos “nãos” desfazem o meu ser.

Meu ser um “eu” de outras formas.

Meu ser em corpos distantes.

Em copos espumantes.

Em roupas que não me cabem.

De “eus” que se negam a mim.

 

São desverdades que me invadem.

Se impõem sem que eu as possa mudar.

Sem que eu as possa calar.

Sem que eu as possa fazerem-se novas.

 

Talvezes, poucos e coragens

são algos que já não sei se quero mudar.

Já não sei se posso.

Porque se desalcançam de mim.

E querem se fazer assim.

Escrito por Filipe Dias às 16h02
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14/10/2009


Mesmo fora de si, ainda que fora de mim.

O que fora, que ainda não fora.

De fora pra dentro, dentre tudo afora.

 

Tudo, talvez, não será.

Porque também isso me disse.

E disse que não foi nada disso,

nem daquilo tudo, daquele todo.

 

Criaste uma borracha de sintonias.

Assim como um imenso muro.

Um muro de nós mal atados,

de nós enterrados pra fora,

num buraco raso e pilado.

 

Uma maré de circunstâncias,

um banho entre equívocos

e negações, muitas negações.

Sim, criaste.

E ainda descria o que não construímos.

 

Uma chuva de medos implenos,

de certezas desconstantes

e constantes hesitações de pensar,

numa correnteza de contradições.

 

O que me disse, não me disse nada.

Eu me ri por dentro, abafado,

me entalhando ao ouvir tuas verdades

vislumbradas em verdades incertas.

 

Não há certezas em partes ambas,

mas em partes dúbias,

numa dubiedade de âmagos.

Ainda que fora de si,

afora de mim, louco!

 

Eu te amo em essência,

mesmo num tempero de dissabores,

descalores, desfavores, desamores.

 

Foi tudo aquilo, sim, sim.

Mas poderá não mais ser.

Porque eu te descriarei

e me recriarei assim,

enquanto você não crescer

para de tudo, todo reaparecer

sem esse bicho de duas cabeças,

e essas hesitações de mins.

Escrito por Filipe Dias às 15h10
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17/07/2009


Você é um doce veneno.
Que vicia e acaricia nossas manias,
agonias, ousadias e loucuras.

Talvez uma cachaça pura.
Uma bebida pura.
Uma amizade pura.

Você é um doce veneno.
Veneno que faz curar.

Escrito por Filipe Dias às 10h20
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16/07/2009


Ao acaso induzido, invisto-me em cheio.

Ao saber invertido, decreto-me em meio.

 

Meio saber de hora, de noite, de vento.

Porque a praia brilha,

ainda que detrás do vidro.

E as sintonias,

essas não se desistem.

 

De quereres e não saberes.

De tempos em muitos tempos.

De tantos não prazeres.

(E prazeres intensos!)

 

Como sou daquele mar,

em onda que vai e vem.

Fazendo questão de arrastar,

me brilhar, me ressentir.

E me sentir mais uma vez.

 

Foi na praia.

A primeira. E a segunda.

 

Uma onda que me descobre,

depois volta a me cobrir.

 

De acasos deduzidos

em sabores invertidos,

em cheios decretados – e atados,

de tudo isso me farei.

 

E me farei o oceano

onde a onda vai pousar.

Escrito por Filipe Dias às 16h14
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19/06/2009


É você quem também me entende,

mesmo em meu louco desentender.

Você é quem também me tem,

mesmo quando, por hora,

não me tenho tanto assim.

 

Você se voa e me leva.

Até a relva transpiraria

da não tensão

só em nos ver passar.

 

Meu te gostar conspira em ti,

independente de qualquer certeza.

É um cultivar calado.

Ainda que calado a ti

em cantar.

 

É um sentar descalado,

um ousar desnudado

e um saliente gastar,

de beber-nos sem pausa.

 

E falo redizendo.

E digo refalando.

 

Você não estava em meu plano

de buscares.

Mas foi logo assim

que eu me tive em você.

Tive, e vou me tendo,

me conhecendo de renotar.

 

O quero já não basta de então.

Porque eu te sei sem aflições.

E te encontro não só do estar,

mas nos provares.

Escrito por Filipe Dias às 15h40
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11/06/2009


Eu não queria te perder.

Mas se na vida a gente perde e ganha,

ganha e perde,

eu não queria te perder. 

Não antes de te ganhar.

Chega de paradigmatizar.

Não importa ganhar ou perder,

e sim ser e estar.

Estar presente para perder

e inteiro para ganhar.

O bom da vida é se permitir.

Eu estou pronto para me perder

ao te ganhar.

E quero voar.

Vem comigo.

 Perdendo ou ganhando,

a gente vai tentando amar.

Escrito por Filipe Dias às 20h44
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09/06/2009


Não foi só um recaminhar, foi um estado de se trocar.

Mas não só em olhares ou palavras a silabar.

Foi, também, um estado de não se estar.

Eu não me continha, nem sabia o que te contar.

Mas o que é que tem, né? Você também não...

Eu ouvia tuas palavras, mas não processava as idéias.

Ainda assim, nos entendíamos.

Eu estava a sair, é verdade.

Agora, contudo, espero o ficar.

Embora ainda não saiba se o melhor é andar ou voar,

pular, eu já pulei (dentro, e com os dois pés!).

O que fazer? Eu espero.

E sinto que já estou no ar.

No ar.

Ar...

Sabia que tem um tempão que eu não tomo açaí?

Escrito por Filipe Dias às 21h29
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31/05/2009


Ainda transpiro teu afago.

Ainda expiro aquele trago.

Mas teu traço já não tem tanta nitidez.

E a timidez não me deixa te lembrar.

Porquanto brinco de me burlar,

você não me ouve a te escutar.

Lá tem outra melodia,

sem o som do meu palpitar.

Te apagaria em mim.

Mas poetizo essa ausência

para sentir a experiência

do ter tentado não tentar.

Você saberia que era eu

se preferisse se escutar.

E o que eu não trago mais de ti,

não trago só por tragar.

Escrito por Filipe Dias às 11h10
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